• Marcos Nogueira

A IPA vai matar a cerveja artesanal. Viva a cerveja!

Começa hoje, em Blumenau, a nona edição do Festival Brasileiro da Cerveja. É o maior evento cervejeiro do Brasil e o melhor lugar para se beber cerveja neste país. Você prova as novidades, conversa com os produtores, se diverte, dá risada e aproveita para passar um tempo no Vale do Itajaí – região catarinense colonizada por alemães, um dos destinos mais singulares do mundo.

Eu recomendo 100% que você vá a Blumenau caso more por perto ou tenha algum esquema para passar a noite. Eu mesmo já fui quatro vezes, a última delas em março de 2014.

Não vou este ano porque não tenho grana sobrando e porque não me planejei para a viagem. A segunda razão é sintomática. Percebo que perdi muito do interesse que já tive pelo universo das ditas cervejas artesanais. Tenho me afastado dos eventos e discussões do meio. Sinto – posso estar enganado – que o setor vive uma bolha que está prestes a explodir. Não há mais espaço para a inovação, e as novidades que surgem são artificialismos marqueteiros.

Senta, que lá vem textão. Vou começar a história do início. Ou de onde ela começou na minha vida.

***

Visitei Blumenau em 2010, na primeira edição do festival. O evento ocupava uma diminuta fração do espaço construído para abrigar a Oktoberfest. Eu escrevia sobre bebidas para a revista VIP, mas chegava atrasado para o clube dos cervejeiros – já havia alguns anos que a comunidade era forte no Brasil. O festival, contudo, foi um marco aglutinador e multiplicador desse grupo.

O clima era de euforia. Cada pequeno estande tinha uma novidade: lager maturada em amburana, cerveja defumada, cerveja mais amarga do que chá de boldo. Um punhado de malucos bebendo em copos plásticos, falando bobagem e sonhando alto. Ali estava uma visão promissora de futuro. Um futuro que não tinha espaço para a pilsen aguada que a gente bebia quando era moleque.

Eu me coloquei como observador. Adoro cerveja, mas alguns aspectos técnicos de produção e degustação me aborrecem. Tirei diploma de sommelier sem ambição alguma de me tornar jurado de concursos internacionais. Meu interesse recai sobre a história e a interação social que a cerveja proporciona.

No decorrer dos anos, o festival cresceu exponencialmente e o mercado brasileiro de cervejas especiais se consolidou. Tornou-se bacana gostar de cervejas caras. Vicejou a abominável figura do chato da cerveja (que perfilei neste artigo da revista Piauí)

No mundo todo, as cervejas antes artesanais se incorporaram ao mainstream – a vertente majoritária de consumo. Um estilo se destacou entre os demais: a india pale ale, universalmente conhecida como IPA.

A IPA, símbolo máximo do triunfo da cerveja artesanal, está matando o movimento, corroendo suas entranhas.

Isso é ruim? Para a tal comunidade cervejeira, certamente. Mas desconfio que o consumidor esteja pouco se lixando para isso. O mundo já girava antes da revolução cervejeira e não vai parar se ela virar poeira.

Nos primórdios do Festival da Cerveja, a demanda e a oferta de cerveja no Brasil se restringiam quase apenas à pilsen das grandes marcas. As artesanais apareceram como fonte de novidades. Naturalmente, se converteram em negócio. A cada edição do festival, o negócio apresentava, com o perdão da redundância, novas novidades. Chegou uma hora em que não havia mais novidades substanciais em matéria de produto. As únicas inovações relevantes diziam respeito ao avanço da tecnologia e da grande indústria sobre o que já fora hobby de fundo de quintal – vide as aquisições da Wäls e da Colorado pela Ambev.

O público sedento por novidades vem engolindo factoides e curiosidades. São meia dúzia de novas versões de IPA por mês, session beer, a busca por frutas cada vez mais inusitadas para compor a receita. Apareceu até cerveja feita para se beber embaixo do chuveiro.

Tudo o que poderia ser feito em matéria de inovação cervejeira já foi feito. Não há mais espaço para novidades. Pelo menos não na velocidade com que fomos acostumados recentemente – em questão de uma década, nos apresentaram tanto o rico passado da cerveja quanto os vislumbres do brilhante futuro.

Mas só a IPA colou de fato. Bares que se orgulham de ter sei-lá-quantos rótulos trabalham com 90% de IPAs. Nas prateleiras do supermercado em frente à minha casa, as IPAs são as primeiras a se esgotar.

Por que a IPA? Por culpa do próprio movimento craft beer, que propagou o culto ao lúpulo. De repente, havia rodas de machos disputando quem bebia a cerveja mais amarga.

Mas nem toda IPA é extrema. Em suas versões mais brandas, é um estilo de cerveja extremamente agradável e, principalmente, convidativo à repetição. São IPA alguns dos rótulos menos caros da paleta artesanal. O pessoal que aderiu tardiamente à cerveja craft percebeu que poderia beber IPA na mesma quantidade e velocidade que antes entornava garrafas de pilsen de 600 mililitros.

A vanguarda da tal comunidade cervejeira está tendo chiliques e bradando aos quatro ventos que “a IPA é a nova pilsen”. A revolta não poderia deixar de incluir teorias conspiratórias que põem a grande indústria no centro do complô.

Sim, a IPA é a nova pilsen. É o porto seguro do bebedor que saiu para fazer umas traquinagens lá fora, mas agora quer voltar à zona de conforto. Não se pode presumir que uma pessoa normal queira provar um tipo diferente de cerveja cada vez que vai ao boteco. Bares com dezenas de chopes lembram aqueles restaurantes familiares de antigamente. O cardápio tinha muitas páginas e todo tipo de comida: churrasco, bacalhau, lasanha, pizza e até perna de cabrito. Mas a clientela insistia em pedir sempre o filé à parmegiana.

A “variedade cervejeira” é algo muito valioso para quem vive do negócio e para quem tem a cerveja artesanal como bandeira pessoal. O resto dos humanos não se importa com isso, desculpem-me os afetados.

A recente infestação de latinhas da tal New England IPA é uma amostra de quanto o mercado está inchado e

batendo cabeça na tentativa de sair da sinuca de bico. Tem gente demais oferecendo a mesma coisa para uma clientela cada vez mais apática.

Uma hora a coisa deve se assentar. Os bares voltarão a ter um número contável de torneiras de chope enquanto o nicho do nicho – sempre pequeno – continuará sua eterna experimentação com suas sours de mamão formosa envelhecidas em tonéis de jacarandá previamente usados para armazenar hidromel. Parece comercial da Budweiser, mas é como eu vejo a coisa. Posso estar errado. Espero que eu esteja errado, porque muita gente legal é capaz de dançar nesse movimento.

A boa notícia é: sempre teremos cerveja.

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